Programa de substituição de coca na Colômbia fracassa e leva agricultores de volta ao cultivo ilegal
Apesar de iniciativa governamental ambiciosa para ajudar produtores rurais a abandonar o plantio de coca, falta de recursos e infraestrutura levam milhares de famílias colombianas a retomarem o cultivo da droga. Atualmente, a Colômbia enfrenta níveis recorde de plantações de coca, com mais de 250 mil hectares.
Um agricultor colombiano que decidiu deixar de cultivar coca — matéria-prima para a produção de cocaína — fez uma promessa: nunca mais plantaria a droga. Ele arrancou os arbustos verdes de sua pequena propriedade em uma região remota da província de Meta, acessível apenas por via fluvial, e os substituiu por cultivos legais como mandioca e banana. Sua história, porém, não teve o desfecho esperado.
Perea era um dos milhares de agricultores que aderiram a um programa estatal de substituição de cultivos, desenhado para facilitar o abandono da coca. No entanto, a maioria da ajuda prometida nunca chegou. A falta de estradas e as enchentes recorrentes tornaram extremamente difícil comercializar sua produção legal. "É uma tragédia," relata Perea. "Mas quando você tem filhos e nenhum trabalho, qual é a escolha? Se nenhuma ajuda chega, você volta a plantar."
A coca oferece vantagens competitivas significativas em relação a outros cultivos. De acordo com Lucas Marín Llanes, pesquisador colombiano especializado na economia da coca e estratégias de substituição, "as colheitas são rápidas — os agricultores conseguem três ou quatro por ano —, é mais fácil transportar, e os produtores sabem qual preço receberão." Pesquisas também indicam que o cultivo de coca pode impulsionar economias locais, aumentando o PIB municipal em até 10% em algumas áreas entre 2014 e 2019.
A Colômbia é responsável por aproximadamente 70% da oferta global de cocaína ilegal. Estima-se que o país possui mais de 250 mil hectares plantados com coca atualmente — um recorde histórico — mesmo com a existência de programas de substituição.
Elena Hernández mudou-se para a região produtora de Guaviare nos anos 1990, atraída pelos salários mais altos. "Havia mais dinheiro naquela época — você podia ver em todos os lugares," recorda. "Consegui economizar e comprar uma casa pequena." Porém, a indústria da coca trouxe consigo violência e insegurança, com grupos armados disputando o controle territorial enquanto o governo tentava reduzir a produção por meio de erradicação manual, fumigação aérea e prisões.
Em 2017, o governo lançou um programa nacional ambicioso de substituição de cultivos ilícitos, batizado de PNIS (Programa Nacional Integral de Sustitución de Cultivos Ilícitos). Nascido do acordo de paz de 2016 entre o governo e as Farc, a maior guerrilha colombiana, o programa prometia apoio financeiro e técnico aos produtores que erradicassem suas plantações de coca. Cerca de 100 mil famílias aderiram à iniciativa, recebendo a promessa de 36 milhões de pesos colombianos (aproximadamente 11 mil dólares ou 8 mil libras) distribuídos ao longo de dois anos.
"A forma como foi apresentado para nós, parecia muito promissora para o desenvolvimento de nosso território," afirma Hernández. Além de suporte financeiro, o programa oferecia assistência técnica, incluindo orientação de agrônomos e aconselhamento sobre manejo do solo. Embora programas de substituição já existissem anteriormente, o PNIS representou a tentativa mais ambiciosa até então e, inicialmente, demonstrava estar funcionando. Contudo, a realidade mostrou-se diferente da promessa inicial.
