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Crise de inadimplência na Argentina coloca em xeque planos de retomada do consumo

A inadimplência ao consumidor na Argentina atinge o maior patamar em duas décadas, frustrando expectativas do governo Milei de que o crédito impulsionasse a recuperação econômica. Com mais de um quarto dos mutuários impossibilitados de obter novos empréstimos, a transição do sistema bancário argentino se mostra mais desafiadora que o previsto.

Redação IA22 de julho de 2026 às 18:03 · Atualizado há 54 dias
Crise de inadimplência na Argentina coloca em xeque planos de retomada do consumo
Imagem: InfoMoney

Apesar das conquistas do governo Javier Milei em reduzir a inflação de três dígitos e retomar o crescimento desde 2023, a persistência da inadimplência ameaça os planos de expandir a economia por meio do fortalecimento dos gastos das famílias. O executivo recebeu elevações sucessivas na classificação de risco soberano, com a Moody's Ratings concedendo melhora na terça-feira, mas permanece em território especulativo.

Os números revelam a profundidade do problema: em 17 meses consecutivos, a taxa de inadimplência em empréstimos ao consumidor — abrangendo cartões de crédito, financiamentos veiculares e outros produtos — cresceu ininterruptamente, chegando a 12,1% em abril, o maior registrado em duas décadas conforme dados do banco central. A consultoria 1816 Economía & Estrategia estima que mais de 25% dos tomadores de crédito não reúnem condições para contratar novos empréstimos.

O cenário contrasta com a expectativa inicial do governo de estimular a economia por meio do consumidor. "Você ficou sem políticas para estimular a economia", afirmou Miguel Kiguel, ex-secretário de Finanças e atual diretor-executivo da consultoria EconViews. "O estímulo fiscal está fora de questão porque não há dinheiro, e o crédito está sendo limitado justamente por causa da inadimplência."

O forte aumento das taxas de juros ocorrido no ano anterior foi o principal catalisador dessa deterioração. Segundo o ministro da Economia, Luis Caputo, os bancos voltaram a atuar como instituições financeiras tradicionais após décadas operando primordialmente com depósitos direcionados ao Tesouro e ao banco central. "Como parte desse processo, a inadimplência aumentou porque as taxas de juros no ano passado estavam muito, muito altas", explicou durante evento neste mês.

Os empréstimos inadimplentes encontram-se nos patamares mais críticos desde o período que se seguiu à crise argentina de 2001-2002, impactando severamente a rentabilidade das instituições financeiras. Os bancos, que expandiram agressivamente a concessão de crédito quando as condições se estabilizavam, viram esse movimento reverter-se. Repetidamente prorrogam expectativas de recuperação enquanto adotam critérios cada vez mais restritivos.

Gonzalo Fernández Covaro, diretor financeiro do Grupo Financiero Galicia, observou que "esses segmentos permanecem problemáticos", citando a estagnação da renda das famílias como obstáculo à melhora. A esperança repousa na queda contínua da inflação e no crescimento econômico, mas ainda não se materializa nas práticas de concessão.

Diante da situação, autoridades começam a incentivar refinanciamentos. Os bancos Nación e Banco Ciudad implementaram programas de reestruturação que ampliam prazos e reduzem custos, enquanto o ministro Caputo elogia iniciativas similares do setor privado. Especialistas do banco central esperam que a inadimplência tenha atingido o pico em junho, em parte pela estabilização das taxas nos últimos meses.

Economistas identificam na crise uma transição estrutural mais profunda. Durante décadas, a inflação crônica desestimulou empréstimos, deixando a Argentina com um dos sistemas bancários menos dependentes de crédito da América Latina. Os bancos obtinham receita principalmente de tarifas e financiamento público, não de empréstimos ao consumidor. Essa dinâmica está mudando, exigindo grande adaptação de mutuários e credores.

A queda inflacionária — de mais de 200% em 2024 para aproximadamente 30% atualmente — altera fundamentalmente o cálculo dos tomadores. "A redução da inflação tem um efeito significativo sobre a velocidade com que as dívidas perdem valor, o que é muito diferente do que ocorreu durante boa parte dos últimos anos", analisa Marcelo De Gruttola, da Moody's Ratings em Buenos Aires.

O fenômeno distribui-se desigualmente pelo território. Em Buenos Aires, apenas 16% dos adultos estão com empréstimos em atraso, enquanto várias províncias do interior registram taxas dobradas, conforme a consultoria Equilibria. Crescimento salarial anêmico e mercado de trabalho enfraquecido dificultam que muitas famílias honrem compromissos.

Mesmo com o volume de crédito quase dobrando desde que Milei assumiu, o crédito ao consumidor representa apenas cerca de 12% do PIB argentino — uma diferença abissal frente ao Brasil, maior economia latino-americana, onde essa proporção aproxima-se de 80%. Economistas e banqueiros preveem apenas recuperação gradual, apontando que o consumidor dificilmente se tornará motor relevante antes das eleições de outubro de 2027.

Por Redação IA · Hoje no MercadoTexto original desta redação, baseado em apuração de InfoMoney.