Credores da Thames Water se preparam para contestação legal contra possível nacionalização
Financiadores da maior companhia de água do Reino Unido planejam ação judicial caso o governo Burnham nationalize a empresa, podendo resultar em uma conta de bilhões para o Estado. A disputa envolve uma proposta de perdão de dívidas e injeção de capital em troca de redução de multas por poluição, rejeitada pelo governo como insuficiente.
Os credores da Thames Water estão se organizando para contestar juridicamente uma eventual nacionalização da companhia, após a posse de Andy Burnham como primeiro-ministro na segunda-feira. Burnham tem defendido publicamente maior participação do Estado no controle dos setores de água e energia e já manifestou apoio explícito à estatização da Thames Water.
Uma proposta dos financiadores previa o perdão de aproximadamente metade da dívida — cerca de £9,4 bilhões dos quase £20 bilhões totais — além de um aporte de £3,35 bilhões em novo capital. Em contrapartida, solicitavam flexibilização em futuras multas por infrações ambientais. O governo, contudo, rejeitou a oferta por considerá-la prejudicial aos consumidores e ao meio ambiente.
Segundo relatos de fontes próximas aos credores divulgados à BBC, caso ocorra a nacionalização integral, estes buscarão o pagamento total das dívidas pendentes, conforme precedentes em situações similares. Tal cenário poderia deixar o Estado com um passivo de vários bilhões de libras. A empresa alertou na quinta-feira que dispõe de recursos financeiros apenas até o final deste ano.
Os credores reafirmaram no domingo estar em negociações contínuas com autoridades e órgãos reguladores visando um acordo para salvaguardar a companhia. O Departamento para Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais declarou estar "preparado para qualquer cenário", destacando que "clientes da Thames Water foram prejudicados há muito tempo, com 15 anos de desempenho insatisfatório, aumento de poluição grave e consumidores arcando com os custos".
Em junho, Emma Reynolds, secretária de Estado, afirmou não desejar um desfecho em que consumidores da Thames tivessem que "arcar com a conta pelos fracassos da empresa". A gestão anterior sinalizou estar "pronta para todas as possibilidades", incluindo uma nacionalização temporária. Lucy Powell, vice-líder trabalhista, indicou em entrevista televisiva que o governo poderia lançar mão de seus poderes especiais para colocar a companhia sob medidas extraordinárias, caso necessário.
Powell criticou o modelo de privatização do setor, afirmando que "não criou competição" e resultou em "aumento contínuo de tarifas ao longo dos anos, falta de investimento e empresas em grave dificuldade". Existe uma alternativa intermediária conhecida como "regime especial de administração" (SAR), que funciona como uma medida temporária até que outro comprador do setor privado seja identificado. Os atuais credores indicaram disposição em participar de um processo de licitação nesse cenário.
Contudo, as declarações do futuro primeiro-ministro sobre ampliar o "controle público" das utilidades essenciais dificultam a possibilidade de que o governo busque novos proprietários privados para uma companhia que atende 16 milhões de pessoas. Isso sugere que uma nacionalização temporária poderia se tornar permanente. Independentemente do caminho escolhido — SAR ou nacionalização total — os contribuintes correm o risco de arcar com déficits operacionais da Thames, estimados pela própria empresa em £2 bilhões até o final do próximo ano.
Apesar da incerteza institucional, o abastecimento de água e saneamento para os consumidores permanecerá funcionando normalmente. Ainda assim, o futuro da Thames Water representa um teste político importante para a nova administração do país.
